O maior risco de transmissão da dengue e da

febre-amarela pode prejudicar o sector do Turismo.

Doenças transmitidas por carraças e mosquitos tendem a aumentar

Alterações climáticas podem levar a condições mais favoráveis à sobrevivência de mosquitos e desenvolvimento de parasitas

O risco de transmissão da dengue e da febre-amarela, doenças transmitidas por mosquitos, pode aumentar para um nível preocupante.

Data: 26-11-2006


Desde Outubro do ano passado que uma nova espécie de mosquitos, proveniente do Norte de África, começou a causar forte consternação junto dos residentes de algumas zonas do concelho do Funchal. Mas o problema, que ainda parece estar longe de estar controlado, promete continuar a trazer novos e mais dissabores para toda a Região.


Segundo o estudo que visou determinar a sensibilidade do arquipélago da Madeira às Alterações Globais do Clima, no âmbito do CLIMAAT II, projecto financiado pelo INTERREG III-B, nos próximos anos o risco de transmissão de doenças por meio de mosquitos e parasitas vai aumentar em grande escala.


Segundo o documento coordenado por Filipe Duarte Santos e Ricardo Aguiar, "as alterações climáticas podem proporcionar condições mais favoráveis para a sobrevivência dos mosquitos e desenvolvimento dos parasitas". É neste sentido que o actual baixo risco de transmissão de doenças como a dengue e a febre-amarela pode passar a ser muito mais elevado, atingido até aquilo que os cientistas referem como "preocupante".

Aumentará também o risco de transmissão da malária da febre do Nilo Ocidental e a leishmaniose cutânea (doença transmitida por um pequeno mosquito), que actualmente não tem expressão na Madeira, pode vir a ganhar outros contornos.


Para além da transmissão por meio de mosquitos, as condições climáticas que se avizinham nas próximas décadas serão também propícias à propagação de patologias por meio de carraças. É o caso da doença de Lyme, da qual não existem hoje em dia casos na Região, mas que com o clima mais quente que se pode esperar no futuro e consequente maior exposição às carraças, é provável que o risco de transmissão da doença aumente exponencialmente. O mesmo se irá passar com a anaplasmose (doença febril não específica aguda) e a febre escaro-nodular (doença endémica em Portugal).


Embora sendo menos sensíveis às condições climáticas, as pulgas também transmitem algumas doenças que se desenvolvem com mais facilidade no tempo quente. É o caso do tifo murino (doença infecciosa com quadro clínico de síndroma febril e lesões vasculares) da qual se prevê um aumento de casos.


O estudo sobre o impacto das alterações climáticas na Região refere ainda, no âmbito da saúde humana, uma possível diminuição da leptospirose, uma doença associada aos roedores e que é prevalente na Madeira e no Porto Santo. A possível redução é justificada "uma vez que os cenários mostram, embora com muita incerteza" uma diminuição nos dias de precipitação extrema".


Os cientistas envolvidos no projecto admitem também que poderá haver uma maior prevalência de doenças respiratórias, já que podem aumentar os impactos na saúde causados pelas maiores concentrações de ozono. Acima de tudo, e neste capítulo da saúde, o estudo alerta para o facto de que "o comércio global e o turismo podem introduzir novos vectores e patogénicos na RAM, sendo que as condições climáticas favoráveis, actuais e futuras, podem em geral facilitar a sobrevivência destes agentes e assim aumentar o risco de transmissão". A possibilidade e o risco cada vez maior de contrair doenças como a febre-amarela e da dengue pode, em última instância, "tornar-se uma preocupação para o sector do Turismo".

 

Ana Luísa Correia