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São milhares as crianças
e jovens portuguesas que vivem em instituições. À espera de adopção ou por
terem sido afastadas temporariamente das famílias biológicas, as
instituições onde residem passam a ser o seu lar e os funcionários dos
espaços, a sua família. Porém, mesmo que refaçam a sua vida junto de uma
nova família ou de regresso às suas origens biológicas, a passagem por
estes locais costuma deixar marcas nas crianças.
O pedopsiquiatra Pedro Caldeira explica
esta situação de duas maneiras. Por um lado, as crianças institucionalizadas
podem criar laços emocionais com os funcionários das instituições. Nesta
situação o comum é que estes laços sejam totalmente quebrados quando a
criança deixa a instituição.
Pedro Caldeira sublinha que "a
política de cortar completamente com os laços não é nada favorável para as
crianças. Para as crianças e para os profissionais basta que saibam que a
sua vida passou por ali", acrescenta.
A outra situação é ainda mais gravosa e
refere-se aos casos em que não se cria qualquer tipo de relação entre as
crianças institucionalizadas e os seus cuidadores. Embora possa ser uma
atitude entendida como defensiva por parte dos funcionários das
instituições, o pedopsiquiatra refere que, contrariamente ao subentendido,
a falta de vínculos pode trazer consequências emocionais e psicológicas a
longo prazo.
"Crianças com vinculações seguras
podem ter mais possibilidade de ter relações estáveis no futuro e crianças
que estiveram em instituições sem vínculos especiais podem ser familiares
com todos mas, pelo contrário não têm uma relação profunda com
ninguém", explica. "Isso quer dizer que não diferenciam as
pessoas, por isso não se protegem, não têm ideia do que é a
segurança".
Na maioria das situações, a culpa pode e
deve ser imputada ao Estado, que não fomenta a criação de ligações junto
das crianças institucionalizadas. "É irónico", sublinha Pedro
Caldeira. "O Estado coloca os jovens em situação institucional e
continua a desprotegê-los". Além disso, é importante que o tema da
institucionalização deixe de ser tabu. O especialista defende que todas as
etapas da vida de uma criança são importantes e mesmo a passagem por uma
instituição ou família de acolhimento não deve ser vista com 'vergonha' ou
como 'um segredo'. "Tem de se deixar de ter esta ideia que as relações
têm de ser exclusivas, que as crianças que estão na família não podem ter
outras ligações fora, uma ideia que é prejudicial mesmo para as crianças
que estão nas instituições." Acima de tudo, o pedopsiquiatra sublinha
que a vinculação está já reconhecida como "um dos factores protectores
para o desenvolvimento da criança".
Mas as mais fortes ligações emocionais
não são exclusivas dos progenitores. Uma criança adoptada por ter um forte
vínculo com a família de adopção ou, mesmo numa família biológica, o
vínculo pode ser mais forte com um avô ou uma tia.
"Há muitas maneiras de se fazer a
vinculação e não há nenhuma relação que seja absolutamente essencial. Há
muitas maneiras de reparar perdas e isto quer dizer que nenhuma criança
está condenada à partida porque pode haver uma fatalidade, mas há sempre
maneiras de recuperar...", explica Pedro Caldeira.
Além disso, estas relações privilegiadas
também são importantes quando estabelecidas com os profissionais de saúde.
O diálogo melhora, as desavenças diminuem e mais facilmente as pessoas
aceitam e cumprem um tratamento médico, por exemplo.
Acima de tudo é necessário incutir no
todo da sociedade uma atitude orientada para a vinculação, quebrando o
isolamento a que a maioria das famílias estão votadas actualmente. O
pedopsiquiatra alerta ainda para o facto de que "os equívocos que se
criam quando o Estado aparentemente arranjam soluções para proteger
crianças e no fundo as colocam em situações de relação artificial, têm de
ser denunciados e evitados".
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